Líderes e heróis no banco dos réus
Humberto Braga

“A política ainda não descobriu o segredo de evitar a violência”
Raymond Aron

Num dos capítulos do seu último livro,
O Menino Grapiúna, Jorge Amado afirma que os líderes e os heróis são indivíduos odiosos e maléficos que, em qualquer sistema de Governo ou em qualquer tipo de sociedade, exigem obediência e culto. E, após negar humanismo aos poderosos, conclui com a seguinte pergunta: “se pensamos em Pasteur e em Chaplin, como admirar e estimar Napoleão?"
O repúdio radical ao mundo do Poder e da política não é exclusividade do mestre baiano. Outro grande escritor, Pedro Nava, nas suas Memórias, refere-se à política como uma atividade desprezível em si mesma. Salvo raríssimas exceções, os políticos não merecem apreço.
Uma das vantagens do homem de letras sobre o cientista social consiste em que o primeiro não está obrigado a apontar soluções para os problemas que suscita. Se a política é a expressão de conflitos sociais de interesse, ideal ou poder, como será possível aboli-la? Ainda que vivessemos num mundo anarquista, esse estado de coisas não daria garantia suficiente de que não surgissem líderes e heróis. Tal esperança não seria admissível sequer no paraíso, pois os que nele crêem concordam em que também lá existe uma hierarquia, vale dizer, uma liderança.
Como, pois, eliminar os indesejáveis líderes e heróis? O problema da importância do indivíduo na História foi objeto de duas teorias extremadas, a heróica, de Carlyle, que exalta o papel do grande homem, e a anti-heróica, de Spencer, Tolstoi e H.G.Wells, que o negligencia. Os marxistas-leninistas apontam como verdadeiro motor da evolução histórica o desenvolvimento das forças produtivas a ação das massas, as leis objetivas e impessoais da sociedade. Mas, curiosamente, quando conquistam o poder, promovem um culto idólatra da personalidade de seus líderes. Se Stalin e Mao vogam hoje em maré baixa, a sagrada múmia de Lênin continua exposta à adoração dos fiéis no santuário socialista da Praça Vermelha. E o próprio Trotsky escreveu, no Diário do Exílio, que sem a ação pessoal de Lênin não teria havido a Revolução de Outubro. Jorge Amado parece admitir a atuação relevante do grande homem político - posto que o condena tão enfaticamente - mas a considera inevitavelmente maléfica. É um Carlyle às avessas.
Conquistar e manter o poder político e, ao mesmo tempo, pautar sua conduta pelos ditames da ética que proside à vida cotidiana de um pacífico homem comum, eis um problema não-resolvido e talvez irresolúvel. Política se faz sujando as mãos, como assinalou Sartre. E isso se aplica, indistintamente, a revolucionários reformistas, conservadores ou reacionários.
O poder político implica, necessariamente, o uso da força; e esta exige, quase sempre, o emprego real ou potencial da violência. Atribui-se a Francisco Campos a frase "governar é prender". Poderíamos acrescentar, nomear, demitir e tributar. Mas o direito de usar a força é, realmente, a principal característica do poder.
A sociedade, como já afirmara Marx, é conflituosa, e o grande erro do marxismo, segundo salientou Kolakowski, é a promessa utópica de uma futura sociedade sem antagonismos. Para o notável pensador polonês, o conflito é inerente à sociedade, seja qual for seu regime político ou o seu modo de produção. O exemplo recente da Polônia confirma plenamente essa observação. A esperança de melhoria da condição humana, no plano social e político, não assenta na quimera de extinguir a ambição de poder e sim na tentativa de resolver os conflitos em níveis crescentes de racionalidade, isto é, por um combate continuo à intolerância, ao privilégio e ao arbítrio. Limitar o poder – não amaldiçoá-lo – e o difícil dever de nosso tempo.
É incontestável que as relações entre os Estados sempre foram, ostensiva ou veladamente, direta ou obliquamente, reguladas pela força. As soluções diplomáticas dos últimos séculos tiveram a respaldá-las o poder político e militar. A guerra é a forma extrema do conflito internacional. Na clássica concepção de Clauzewitz, é ela a continuação da política por outros meios, o que importa dizer, pela violência. Haverá guerra enquanto houver Estados soberanos. Alguns otimistas confiam no impasse nuclear, como fator de equilíbrio, por mútuo receio de aniquilamento, e põem sua esperança de paz... na bomba atômica. De qualquer modo, ninguém acredita que as conflagrações possam ser evitadas por obra de mensagens de amor ou apelos à fraternidade humana.
Todos concordam em que a guerra é terrível e detestável, sobretudo na atualidade, quando não subsiste nenhum dos seus aspectos românticos. Mas ninguém duvida que o pacifismo unilateral e incondicional, num mundo de Estados soberanos, equivale ao sacrifício da independência ou da identidade nacionais.
Mas se a guerra é ou foi inevitável, não nos parece lógico lançar abominação sobre os guerreiros. Alexandre, César, Anibal ou Napoleão não criaram a guerra. Foram criados por ela. E a diferença entre aqueles grandes capitães e outros de menor fama consiste apenas no fato de que os primeiros alcançaram êxito no seu trabalho, revelaram valor ou invulgar talento em seu comando e por essas e outras aptidões ganharam muitas e importantes batalhas, embora Anibal e Napoleão terminassem perdendo a última.
Jorge Amado coteja Napoleão com Pasteur e Chaplln. São individualidades heterogéneas. Pasteur foi um cientista. Seria justo contrapô-lo a Wernher von Braun, que tanto se destacou na ciência bélica. Chaplin foi um artista. Fora razoável confrontá-lo com John Ford, que nos seus filmes tanto exaltou o heroísmo dos pistoleiros do
Oeste americano.
Em favor de Napoleão, particularmente considerado, cumpre lembrar, entre outras coisas, que libertou os judeus dos seus guetos, que grande parte da organização institucional da França contemporânea se deve a ele e que a implantação do seu Código nas terras conquistadas abreviou a liquidação do feudallamo na Europa Ocidental e Central. Apesar disso, o Corso não é um vulto histórico estimável. Seu orgulho desmedido e os traços maquiavélicos e nietzscheanos de sua personalidade não atraem o amor, por mais que alguns escritores do século passado tentassem transformá-lo numa figura romântica. Mas desde que admirar não é louvar nem aplaudir, como se pode ver em qualquer dicionário, por que não sentir admiração pelo seu gênio de estadista e militar? Malraux definiu-o numa antítese lacônica: “Um grande espírito e uma pequena alma". E, mais retoricamente, um seu inimigo encarniçado, Chatcaubriand, apontou-o, nas Memórias de Além-Túmulo, como "o mais poderoso sopro de vida que jamais animou a argila humana". Eia aí dois exemplos de admiração sem amor.
Contudo, de nada adiantaria enumerar para o grande Jorge Amado os altos dotes de Napoleão como político e guerrero, pois são precisamente eles que o levam a recusar-lhe admiração.
Enfim, a beleza de uma epopéia está no poema que a celebra e não na terrível realidade que o inspirou e é sempre preferível o prazer de assistir a Luzes da Cidade à glória de haver participado dos lauréis de Austerlitz.

Jornal do Brasil, 10/03/1982

 
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