Moralidade e Política
Humberto Braga

O universo de valores e costumes a que se chama ética é exigência básica da vida social, em todas as suas manifestações e não apenas na da política. Moralidade se aprende na família, na escola, na igreja, no trabalho, nas relações da vida cotidiana. Moralidade não é finalidade (ponto de chegada) e sim fundamento (ponto de partida). É pré-requisito de qualquer atividade.

Política é luta pelo poder e os fins do governo, nas democracias, são: preservar a liberdade dos cidadãos mantendo a ordem pública, velar pelo cumprimento da lei, incentivar o crescimento econômico e prover o bem-estar social. É dever dos poderes do Estado apurar e punir os atos ilícitos ou criminosos, mas saneamento moral não é sua finalidade.

Camille Desmoulins, o maior jornalista da Revolução Francesa, advertiu: “Não misturemos política com regeneração moral. O moralismo é fatal à liberdade”. Ele acabou guilhotinado pelo moralista Robespierre. No Brasil de 1964, muitos militares, tal como os jacobinos franceses de 1793, prometiam a extirpação da corrupção e o advento do Reino da Virtude. Não tiveram êxito, mas fizeram muito dano à liberdade. Quando se abandona a esfera do possível pela do ideal perfeccionista acaba-se entrando na da intolerância, do arbítrio ou do fanatismo.

É necessária e louvável a ação dos que denunciam imoralidades públicas ou privadas. Imoralidade política tem que ser alvo de combate permanente, mas este não pode ser o objeto supremo da vida pública. A polícia é indispensável mas não se deve deduzir daí que a atividade policial seja a mais relevante do Estado, sua prioridade máxima. Crime tem que ter castigo, embora a justiça penal mais severa não acredite num mundo livre da criminalidade. Assim, quem reclamar perfeição nos homens públicos acabará caindo no maniqueísmo dos políticos bons versus maus.

Há 500 anos, Maquiavel mostrou a distinção entre o comportamento ético do homem público e o do indivíduo comum. Luís XI tinha inúmeros defeitos pessoais mas, pela capacidade política, unificou a França e destruiu o poder dos grandes senhores feudais, Luís XVI era um modelo de virtudes pessoais, mas, pela sua inépcia política, contribuiu decisivamente para a queda da monarquia. Dos dois, qual o melhor rei?

Max Weber acentuou que o homem de Estado não pode guiar-se apenas pela ética da consciência mas também pela de consequência. Na história política os resultados contam mais do que os princípios. Richelieu e Bismarck levaram seus países à grandeza, inspirados no que veio a chamar-se Realpolitik, aquela que opera atentando mais no ser do que no dever-ser. E Sartre, na sua conhecida peça “As mãos sujas”, lembra que é impossível o comportamento integralmente puro, na política.

É prudente, pois, desconfiar das cruzadas políticas moralistas, que apontam a História como uma guerra entre puros e impuros, e propõem a luta pela moralidade como bandeira e programa de governo. Frequentemente elas significam farisaísmo na cúpula e ingenuidade na base. De tudo se conclui que o julgamento de um governo deve ser feito à luz de uma visão global, pesando-se o saldo ou déficit do seu desempenho nos grandes planos da atividade pública.
O Globo / Caderno Opnião - pág. 07, 21/08/2006

 
artigos | discursos | sobre HB
Política externa – esta desconhecida
04/10/2012

Depois do Julgamento
28/06/2012

Algumas imprevisíveis alianças políticas
22/06/2012

Mundos apartados
30/03/2012

Direita e esquerda
05/03/2012

O senhor Merval Pereira, em artigo no O Globo de 9/9/11
19/10/2011

Os fins e os meios na política
15/07/2011

A Sonhática
01/07/2011

Respostas às críticas ao artigo “Moralismo Antidemocrático”, publicado na Internet, em vários sites
15/05/2011

Moralismo antidemocrático
01/05/2011

A Constituição e a Lei da Ficha Limpa
15/04/2011

Problema jurídico e político
10/01/2011

Declínio e queda do comunismo
19/11/2010

Exemplos de ação e omissão na política
01/10/2010

Alternância de poder
09/09/2010

História para principiantes
30/08/2010

Americanismo e antiamericanismo
16/08/2010

Ética na política
09/04/2010

Erros de visão em história e sociologia
01/01/2010

A ascenção do Individualismo
01/09/2009

História teimosa
01/09/2009

O Estilo Político de Carlos Lacerda
15/05/2009

Moralidade e Política
2009

Erros de visão em história e sociologia
2009

Carta a um amigo
2009

Bárbaros
13/10/2008

Tropel dos Bárbaros
2008

Caymmi, um gênio da raça
21/08/2008

O Tribunal de Contas e a Moralidade
05/06/2008

Preconceito
31/12/2007

Juscelino e a Revolução de 64
2007

Alguns aspectos positivos do Governo Lula
23/10/2006

Moralidade e Política
21/08/2006

A Vida depois da Morte
2006

O General da Reabertura
24/11/2003

Guerra e crime
21/04/2003

Alguns Comentários sobre Literatura
2002

Tortura e terrorismo
19/03/2001

A viagem e a morte
17/02/1997

O Mago no Trânsito
1997

Nelson Carneiro, o homem público
28/03/1996

Prefácio do livro de Julieta Wendhausen de Carvalho Gomes
06/09/1993

Homenagem a Ulysses Guimarães
01/03/1993

Vicissitudes do moralismo
13/03/1992

Quem traiu?
01/10/1991

A esquerda viável
30/07/1991

A miragem neoliberal
29/12/1990

Passagem pela Índia
24/12/1989

França e Rússia: duas revoluções
25/07/1989

Estabilidade e efetivação
26/11/1988

Do sonho à quimera
28/06/1988

A abertura soviética
06/08/1987

Que é uma Constituição
21/03/1987

As Megalópoles e sua tragédia
20/08/1986

O extremismo na política
18/11/1985

Pessimismo em alta
23/09/1985

Excessos de defesa da democracia
01/08/1985

A China pós-maoísta
12/12/1984

João Figueiredo em toda a sua glória
06/12/1984

O homem da pasta negra
04/12/1984

Doutor Tancredo
30/11/1984

Bolivar e o destino da América Latina
02/09/1984

A ONU é insubstituível
22/01/1984

No centenário do nascimento de Keynes e Schumpeter
01/12/1983

Ainda o problema da violência
29/04/1983

Gandhi e a não-violência
21/03/1983

Esperando os Bárbaros
02/02/1983

A encruzilhada das Cortes de Contas
02/12/1982

Diagnóstico da Direita VI
01/12/1982

Diagnóstico da Direita V
27/11/1982

Diagnóstlco da Direita IV
17/11/1982

Diagnóstico da Direita III
15/10/1982

Diagnóstico da Direita II
08/10/1982

Diagnóstico da Direita I
22/09/1982

A importância de "Os Sertões"
01/09/1982

Saber e poder
28/07/1982

Líderes e heróis no banco dos réus
10/03/1982

A possibilidade de progresso moral
27/12/1981

Wagner, Israel e a intolerância religiosa
27/11/1981

Lições da China
14/04/1981

A prevenção de um crime
11/02/1981

O cinquentenário da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Rio de Janeiro
01/08/1980

A prevenção de um crime
10/03/1980

Os trinta anos da Revolução Chinesa
01/10/1979

Ligeiros arranhões na púrpura imperial
22/01/1976

A técnica: vitorias e perigos
01/01/1972

O julgamento de Otelo
21/12/1971

O destino da livre iniciativa
01/08/1970

Perspectivas psiquiátricas
01/01/1970

Paisagem
1970

Psicogenese e psicopatologia da esterilidade involuntária
01/12/1966

A personalidade humana e a maturidade mental
Relembrando antigas lições
O conhecimento histórico
Adam Smith e o seu tempo
Mandato criminal