Wagner, Israel e a intolerância religiosa
Humberto Braga

A imprensa anuncia que, afinal, a música de Wagner ressoou em Tel Aviv. Mas os acordes sublimes do Prelúdio de Tristão e Isolda, que Otto Maria Carpeaux considerava opus intemporal, não suscitaram apenas aplausos. Houve também vaias, tumultos, trocas de socos. Pela primeira vez, ouvia-se uma produção do espantoso gênio de Bayreuth, em Israel. Apesar de não haver qualquer proibição oficial, pesava sobre a obra de Wagner, naquele país, uma proscrição tácita. E os motivos invocados eram o anti-semitismo do compositor e sua glorificação pelos líderes do Terceiro Reich.
Analisemos essas razões, com a isenção de quem tem uma neta em cujas veias corre o sangue dos Ashkenazim da Europa Oriental. Wagner era antisemita. Eis um fato incontestável. Após a Segunda Guerra, quando se fala em anti-semitismo, acodem logo as imagens das câmaras de gás e dos fomos crematórios, cujo tétrico impacto senti ao visitar Auschwitz. Não ocorre a muitos, que justamente se condoem do holocausto dos judeus, a consideração de que anti-semitismo na Europa Ocidental, do século passado; não guardava quaiquer relação com genocídio.
Anti-semitas foram muitos dos intelectuais da "belle époque", especialmente entre os escritores católicos da França. O anti-semitismo puramente intelectual de Wagner não o impedia de acolher e até mesmo reclamar o concurso de músicos judeus nas orquestras que executavam suas composições. Embora injustificável e odioso o preconceito daqueles artistas e homens de letras, seria absurdo considerá-los precursores de Himmler ou de Eichman. E se alguém sustentar que o anti-semitismo anterior ao nazismo foi necessariamente a matriz geradora das monstruosidades por ele perpetradas, então será preciso dilatar imensamente o espectro das responsabilidades, para que nele sejam incluídos todos os supostamente culpados pela hecatombe. Será preciso remontar a um longo passado, para situar na coorte dos criminosos anti-semitas, não apenas as massas ignaras da Europa, mas toda uma teoria de potentados, que vão dos reis católicos aos czares ortodoxos, dos pontífices romanos aos cruzados francos. O anti-semitismo no Ocidente atenuou-se com o advento do protestantismo, conquanto suas manifestações mais cruéis só cessassem após a Revolução Francesa. Todavia, a Europa Oriental continuou como cenário de sangrentos pogroms até no nosso século.
Não podemos neste artigo analisar as implicações sociais e psicológicas desse histórico problema da intolerância religiosa. Contudo, seria injusto atribuir sua gênese ao cristianismo. Nisto, os cristãos foram tão-somente herdeiros do legado Israelita. O Islã, outra "heresia judaica", herdou atenuada essa característica temível. Mas, nessa matéria, a diferença entre cristãos e judeus consistiu em que os primeiros tiveram oportunidade de revelar, em larga escala, sob a forma de violência e iniquidade, a sua intolerância religiosa, enquanto os últimos não a tiveram.
O Antigo Testamento comprova abundantemente esta asseveração. Alguns exemplos bastarão para que se possa cotejar o fanatismo religioso dos antigos hebreus com a complacência dos romanos, que toleravam os mais diversos credos no seio do império. (A perseguição aos cristãos se deveu precisamente à recusa destes a aceitar a coexistência religiosa). "Quando o Senhor, teu Deus, te tiver introduzido na terra que vais possuir, a fim de a conquistar, e tiver despojado em teu favor numerosos povos, o heteu, o gergeseu, o amorreu, o cananeu, o ferezeu, o heveu e o jebuseu, sete povos maiores e mais poderosos do que tu; quando o Senhor, teu Deus, os tiver entregado e tu os tiveres vencido, então, os destruirás. Não farás nenhum pacto com eles, nem terás piedade deles: não darás a tua filha ao seu filho, nem desposarás sua filha com o teu filho". (Deuteronômio 7, 1-4). "E quando o Senhor, teu Deus, entregar nas tuas mãos, passarás todos os seus habitantes varões a fio de espada". (Deuteronômio 20, 13-14). "Quanto às cidades daqueles povos que o Senhor, teu Deus, te há de dar por herança, não deixarás subsistir nelas nem uma só alma". (Deuteronômio 20, 16-18). E a razão dessa inflexibilidade era "porque eles desviariam o teu filho de Mim para adorar deuses estranhos", "para que não vos ensinassem a imitar as abominações que praticam em honra de seus deuses".
Seria indefensável recuar no tempo para explicar pelas culpas dos pais o infortúnio dos filhos. Tanto mais quando há quem admita, como Arthur Koestler, em
La Quête de I Absolu, que os judeus modernos - na sua maioria - não descendem etnicamente dos antigos hebreus e sim dos Khazars, povo que habitava o norte do Cáucaso e que se converteu ao judaísmo aí pelo século VIII. É verdade que escritores ainda mais imaginosos lançaram a hipótese de que aquele povo fosse um remanescente das "Dez Tribos Perdidas" do· reino de Israel, após a conquista assíria...
Seja como for, os Israelitas de hoje não são responsáveis pelo feroz exclusivismo religioso do povo bíblico. Também Wagner não foi responsável pelas atrocidades nazistas. Honra, pois, ao regente judeu que, num gesto de grandeza moral e artística, fez ouvir em Israel a música imperecível de
Tristão e Isolda.

Jornal do Brasil, 27/11/1981

 
artigos | discursos | sobre HB
Política externa – esta desconhecida
04/10/2012

Depois do Julgamento
28/06/2012

Algumas imprevisíveis alianças políticas
22/06/2012

Mundos apartados
30/03/2012

Direita e esquerda
05/03/2012

O senhor Merval Pereira, em artigo no O Globo de 9/9/11
19/10/2011

Os fins e os meios na política
15/07/2011

A Sonhática
01/07/2011

Respostas às críticas ao artigo “Moralismo Antidemocrático”, publicado na Internet, em vários sites
15/05/2011

Moralismo antidemocrático
01/05/2011

A Constituição e a Lei da Ficha Limpa
15/04/2011

Problema jurídico e político
10/01/2011

Declínio e queda do comunismo
19/11/2010

Exemplos de ação e omissão na política
01/10/2010

Alternância de poder
09/09/2010

História para principiantes
30/08/2010

Americanismo e antiamericanismo
16/08/2010

Ética na política
09/04/2010

Erros de visão em história e sociologia
01/01/2010

A ascenção do Individualismo
01/09/2009

História teimosa
01/09/2009

O Estilo Político de Carlos Lacerda
15/05/2009

Moralidade e Política
2009

Erros de visão em história e sociologia
2009

Carta a um amigo
2009

Bárbaros
13/10/2008

Tropel dos Bárbaros
2008

Caymmi, um gênio da raça
21/08/2008

O Tribunal de Contas e a Moralidade
05/06/2008

Preconceito
31/12/2007

Juscelino e a Revolução de 64
2007

Alguns aspectos positivos do Governo Lula
23/10/2006

Moralidade e Política
21/08/2006

A Vida depois da Morte
2006

O General da Reabertura
24/11/2003

Guerra e crime
21/04/2003

Alguns Comentários sobre Literatura
2002

Tortura e terrorismo
19/03/2001

A viagem e a morte
17/02/1997

O Mago no Trânsito
1997

Nelson Carneiro, o homem público
28/03/1996

Prefácio do livro de Julieta Wendhausen de Carvalho Gomes
06/09/1993

Homenagem a Ulysses Guimarães
01/03/1993

Vicissitudes do moralismo
13/03/1992

Quem traiu?
01/10/1991

A esquerda viável
30/07/1991

A miragem neoliberal
29/12/1990

Passagem pela Índia
24/12/1989

França e Rússia: duas revoluções
25/07/1989

Estabilidade e efetivação
26/11/1988

Do sonho à quimera
28/06/1988

A abertura soviética
06/08/1987

Que é uma Constituição
21/03/1987

As Megalópoles e sua tragédia
20/08/1986

O extremismo na política
18/11/1985

Pessimismo em alta
23/09/1985

Excessos de defesa da democracia
01/08/1985

A China pós-maoísta
12/12/1984

João Figueiredo em toda a sua glória
06/12/1984

O homem da pasta negra
04/12/1984

Doutor Tancredo
30/11/1984

Bolivar e o destino da América Latina
02/09/1984

A ONU é insubstituível
22/01/1984

No centenário do nascimento de Keynes e Schumpeter
01/12/1983

Ainda o problema da violência
29/04/1983

Gandhi e a não-violência
21/03/1983

Esperando os Bárbaros
02/02/1983

A encruzilhada das Cortes de Contas
02/12/1982

Diagnóstico da Direita VI
01/12/1982

Diagnóstico da Direita V
27/11/1982

Diagnóstlco da Direita IV
17/11/1982

Diagnóstico da Direita III
15/10/1982

Diagnóstico da Direita II
08/10/1982

Diagnóstico da Direita I
22/09/1982

A importância de "Os Sertões"
01/09/1982

Saber e poder
28/07/1982

Líderes e heróis no banco dos réus
10/03/1982

A possibilidade de progresso moral
27/12/1981

Wagner, Israel e a intolerância religiosa
27/11/1981

Lições da China
14/04/1981

A prevenção de um crime
11/02/1981

O cinquentenário da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Rio de Janeiro
01/08/1980

A prevenção de um crime
10/03/1980

Os trinta anos da Revolução Chinesa
01/10/1979

Ligeiros arranhões na púrpura imperial
22/01/1976

A técnica: vitorias e perigos
01/01/1972

O julgamento de Otelo
21/12/1971

O destino da livre iniciativa
01/08/1970

Perspectivas psiquiátricas
01/01/1970

Paisagem
1970

Psicogenese e psicopatologia da esterilidade involuntária
01/12/1966

A personalidade humana e a maturidade mental
Relembrando antigas lições
O conhecimento histórico
Adam Smith e o seu tempo
Mandato criminal