O cinquentenário da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Rio de Janeiro
Humberto Braga

Mais do que coincidência deve ser considerado simbólico o fato de a Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ ter surgido com a Revolução de 30. Sejam quais forem os sentimentos pessoais ou as posições políticas, todos concordarão hoje em que aquele movimento assinalou o fim do Brasil patriarcal, feudal, reduzido à mera passividade de um objeto da História. A Revolução de 30, com todos os seus erros, representou um poderoso ímpeto de renovação e de criação que sacudiu e empolgou o organismo nacional. Foi essa a fase em que nasceu o Ministério da Educação. Foi esse o período em que Gilberto Freyre e outros sistematizaram e difundiram o ensino das ciências sociais, seguindo a trilha aberta pelo esforço pioneiro e precursor de Alberto Torres, de Oliveira Viana e de Euclydes da Cunha.
Antes das Faculdades de Economia quais eram os economistas? Eram os engenheiros, haja vista o exemplo do Professor Eugênio Gudin. Assim, a economia aparecia no embasamento das ciências exatas. Mas, no fragor dos grandes acontecimentos de 30, quando o Brasil começa a pensar-se como sujeito do seu destino, a economia emerge como ciência social.
Foi habitual na geração que sucedeu à Segunda Guerra Mundial, sob a vitoriosa influência norte-americana, denunciar o ensino acadêmico, pedante e alienado, que vigorava no nosso país. Realmente, as Faculdades não formavarn profissionais e sim futuros medalhões, cujo suposto saber se dissociava da realidade nacional e cujos interesses com ela não se comprometiam. Seguia-se a tradição estiolante dos banzas da Coimbra decadente, com a sua cultura ornamental e estéril.
Mas hoje denúncia de outro gênero se impõe. Não é uma novidade, de vez que muitos já a fizeram. Pouco importa. Napoleão disse uma vez que a única forma eficaz de retórica era a repetição.
Com o colapso das instituições democráticas do Brasil, as Universidades deixaram de ser centros de formação de intelectuais e se transformaram em forjas de tecnocratas. Extinguiram-se os focos de crepitação intelectual. Minguou o conhecimento humanístico e hipertrofiou-se o especializado, trazendo como consequência os "novos bárbaros" que sabem cada vez mais de cada vez menos até chegarem à perfeição do modelo que seria não saber nada.
Na quadra política do regime de exceção, a economia desvirtuou-se passando de ciência social a conhecimento puramente técnico. É verdade que sob o autoritarismo o prestígio dos economistas ultrapassou o dos empresários. Mas, paradoxalmente, desse prestígio adveio o descrédito. Porque se tentou apresentar o saber econômico como um saber hermético, esotérico, semi-cabalístico, só acessível ao novo mandarinato tecnocrático. Porque se tentou apresentar a solução econômica como resultante apenas da competência de cientistas que salvariam o Brasil no silêncio e na distância de seus gabinetes.
Ora, o Brasil não pede salvações e sim soluções. Politica econômica, como o próprio nome diz, não é somente questão de competência e de saber especializado mas de representação e defesa de interesses legítimos, pois, numa sociedade pluralista, os interesses frequentemente colidem ou diferem. Economia neutra, puramente objetiva, acima dos interesses em jogo, é uma ficção ou uma impostura. Economia, repitamos mais uma vez, é ciência social, seu agente é o homem e isso supõe necessariamente a opção política, a definição política.
Devem, pois, os jovens economistas imbuir-se da consciência de que são verdadeiros cientistas sociais, participantes do drama nacional, e não situar-se na categoria dos álgidos tecnocratas, que gostariam de manipular o organismo econômico brasileiro como um anatomista manipula um cadáver.
Uma instituição como a Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ - hoje sob a direção competente e ilustre do Professor Windson Natal e em cujo corpo docente tenho a honra de figurar - , não é apenas a depositária de um grande legado, mas também a portadora de uma grande esperança. Nas comemorações dos seus 50 anos, rendo minha homenagem aos professores, alunos e servidores do passado, que lhe deram vida e alento, com o seu trabalho, com o seu saber e, principalmente, com o seu amor.

Revista do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, 01/08/1980

 
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