Ligeiros arranhões na púrpura imperial
Humberto Braga

Ao ensejo das celebrações do sesquicentenário do nascimento de D. Pedro II, a escritora Lidia Besouchet acaba de lançar o livro "Exílio e Morte do Imperador", que, segundo informa a imprensa, figura entre os mais vendidos em dezembro de 1975. Trata-se de alentado volume de mais de 400 páginas, denso de informação e confirmador de incontestável mérito literário, livro cuja feitura exigiu vários anos de pesquisa. O sentido da obra é francamente apologético. Não contém uma análise da personalidade do monarca, nem um estudo ou julgamento de sua ação política. Tampouco se detém ou aprofunda no exame dos fatores sócio-econômicos que contribuiram para a queda do Império.
A primeira coisa que desconcerta o leitor é a falta de relação entre o título e o texto, pois a parte concernente ao exílio e morte do soberano começa na página 379. O resto trata da vida do biografado, a partir do nascimento, demorando-se nas suas relações com Gobineau e a Condessa de Barral. Ênfase especial foi dada às viagens de D. Pedro ao exterior e ali se encontram as mais graves debilidades do livro. A redação, uma ou outra vez, claudica. Todavia os erros mais deploráveis são os de natureza geográfica e histórica.
Enumeremos alguns deles.
À página 27, a autora sugere ser D. Pedro II descendente do Rei D. Afonso VI de Portugal. Este foi realmente seu antepassado, mas não ascendente, pela simples razão de não ter tido filhos. Mencionando a estada de D. Pedro II no Egito, em 1876, (página 235), e se referindo à sua visita a Tebas, acrescenta: "Tebas ilustrada pelas lendas de
Edipo". Ora, o famoso personagem de Sófocles, o lendário Édipo, foi Rei de Tebas... na Grécia. A Tebas da Grécia se parecia ante com a do Egito como a Corinto grega com a sua homônima de Minas Gerais. Aludindo à estada do Imperador em Moscou (página 216), diz que ele admirou "a grande beleza das estátuas equestres de Minine e Pojarski". O autor deste artigo pôde, no verão de 1975, apreciar, maravilhado, as estátuas dos dois heróis - o açougueiro Minine e o príncipe Pojarski - que, em 1612, libertaram Moscou dos poloneses do Rei Sigismundo III. É soberbo o conjunto escultural de Martes, inaugurado em 1818, na Praça Vermelha, em frente à incrível igreja de São Basílio. Resta apenas considerar um pormenor. Não há cavalo algum num raio de, pelo menos, meio quilômetro do monumento.
Aliás, à escritora não foi nada feliz acompanhando o Imperador nessa viagem à Rússia. Sigamos a trajetória dos seus tropeços. Na página 213, diz que, em St. Petersburgo, o monarca visitou o Mosteiro de Novodievitch, que lhe pareceu o mais extraordinário de todos. Acontece, porém, que o Mosteiro de Novodlevitch, cujas linhas de sonho pude ver embevecido, do lado de fora, não fica na antiga St. Petersburgo (hoje Leningrado) e sim em Moscou. Na página 215, afirma que o Imperador ainda na capital czarista, assistiu aos Coros da Catedral de Nossa Senhora de Kiev. Não havia, nem há, tal catedral, com o nome da capital da Ucrânia, em St. Petersburgo. A Catedral era a de Nossa Senhora da Kazan (hoje Museu da Religião e do Ateísmo), tendo à frente as estátuas de Kutuzov e de Barclay de Tolly, heróis da guerra napoleônica de 1812.
Na página 214, Lídia Besouchet insiste por três vezes em chamar de Starskoiselo a residência Imperial de verão, Tsarkoiselo, nos arredores da antiga capital. Tal grafia não é justificável nem mesmo em caracteres cirílicos. Sempre referindo-se ao biografado, escreve, na pagina 279, "conversava com o Czar em uma residência romântica no Báltico". Ora, Alexandre II recebeu D. Pedro no Palácio de Livádia, na Criméia, às margens do Mar Negro. Aqui houve uma inversão geográfica, atribuindo-se ao Norte o que ocorreu no Sul. A autora trata Vilpuri e Viborg como se fossem duas cidades diferentes, quando é uma única cidade, capital da Carélia, Vilpuri em finlandês, Vibor em russo (págs. 211 e 212). Na página 217 temos uma séria confusão: "No Grande Teatro de Moscou, maior que o Scala de Milão ("quelle grandeur en toutes choses! quelle magnificence"), convidados pelo Príncipe Humberto, herdeiro do trono e futuro Humberto I, o Imperador e Gobineau assistiram à apresentação da Sonâmbula de Bellini" .
O leitor pouco versado em História concluirá que o Príncipe Humberto era o herdeiro do trono russo, quando na verdade Umberto (sem H) era o herdeiro e foi depois o ocupante do trono "italiano. Estaria ele em Moscou, na mesma época que D. Pedro, de modo a poder convidá-lo ao Teatro? Lê-se, na página 140, "a Ordem da Jarreteira, instituída pelo fundador do Castelo de Windsor, Eduardo III". E rigorosamente certo ter sido Eduardo III o fundador daquela Ordem, assim como é totalmente errado que haja sido ele o fundador do Castelo de Windsor, construido muito antes. A sede da Ordem é
uma capela, em Windsor, construída por Henrique III, bisavô de Eduardo III.
Por duas vezes, na pâgina 231, a escritora dá o nome de Tirreno – mar que banha a costa ocidental da Itália - à cidade grega, arruinada, de Tirinto. Referindo-se ao Palácio de Potsdam, na página 243, alude ao "relógio que marcava o minuto exato da morte de Frederico Guilherme". Qual deles? Houve quatro Fredericos Guilhermes Reis da Prússia. Logo adiante, nas páginas 244 e 245, o Presidente da República Francesa, Marechal MacMahon, é rebaixado a General. Reportando-se a um vulto feminino que exerceu particular fascínio sobre o Imperador, a autora, à página 336, assinalou seu encontro, em Cannes, com Antônia, neta de D. Miguel de Portugal, tio de D. Pedro II, portanto sua prima em segundo grau, embora o chamasse de tio. Todavia, Pedro Calmon, na sua recém-publicada "História de D. Pedro II", nos informa que aquela Antônia era a Princesa Antônia de Hohenzollern, filha da Rainha D. Maria II de Portugal, por conseguinte sobrinha realmente do Imperador. (Obra citada, 4º volume, pág. 1379.) A escritora, na página 347, indica o ano de 1889 como o do Centenário da República Francesa. E bem sabido que, embora a Revolução Francesa eclodisse em 1789, a República só foi proclamada em 1792.
Na página 394, aludindo à estada do Imperador, em Cannes, no inverno de 1889/90, menciona duas vezes o "Arquiduque da Rússia". Acontece que nunca houve Arquiduques russos e sim Grão-Duques. Grão-Duque era o título dos familiares do Czar Romanov. Arquiduque era um título da monarquia austro-húngara, designando os familiares do Kaiser Habsburgo. Portanto, era um Grão-Duque russo. Qual deles? Só o Czar da época, Alexandre III, tinha quatro irmãos: Vladimir, Aleixo, Paulo e Sérgio, todos eles Grão-Duques, sem contar os demais parentes. Na página 419, encabeçando a relação de pessoas que visitaram o corpo de D. Pedro no leito de morte do Hotel Bedford (1891 ), lê-se: "a ex-Rainha Dona Amélia" . Quem era essa ex-Rainha? Não podia ser a ex-Imperatriz Maria Amélia de Beauharnais, madrasta de D. Pedro II, que falecera em 1873. Não podia ser a ex-Rainha Maria Amélia de França, viúva de Luis Felipe, falecida em 1866. Não podia ser a ex-Rainha Amélia da Grécia, viúva de Oton I, falecida em 1876. Seria então Amélia de Orleans, mulher do Rei D. Carlos de Portugal, sobrinho-neto de D. Pedro II. Mas esta, em 1891, não era ex-Rainha e sim Rainha mesmo. Não deixou de sê-lo quando foi assassinado o marido em 1908. Só se tomou ex-Rainha com a proclamação da República, em 1910, quando foi destronado seu filho, D. Manuel II.
Lemos ainda, na página 427, onde se descreve a cerimônia fúnebre na Madeleine, "na terceira fila colocaram - se o Rei de Nápoles, a Rainha Isabel de Espanha, a Infanta D. Eulália de Orleans, os Condes de Paris, D. Francisco de Assis e Francisco II de Nápoles". Sucede que Francisco II de Nápoles foi o último soberano daquele reino, também chamado das Duas Sicílias. Não houve nenhum outro monarca em Nápoles, após Francisco II de Bourbon. Quem era então aquele misterioso Rei de Nãpoles, colocado à testa da terceira
fila?
Paremos aqui. Esses e outros equívocos e incorreções não desmerecem o valor do livro de Lídia Besouchet, nem amesquinham o grande esforço por ela realizado. Mas acentuam a necessidade de cuidadosa análise e revisão do material coletado, de forma a não comprometer a seriedade do trabalho e induzir o leitor a erros e confusões perfeitamente evitáveis.

O Globo, 22/01/1976

 
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